
Foto: Francisco Fernandes
Com o coração nas mãos, as pernas a tremer, o gosto pela aventura, remexido com o pavor do desconhecido e a angústia de deixar para trás o que mais querido tenho na vida, acompanhada do outro oásis da minha existência, parti para Marrocos.
Dez horas de viagem e ainda não tínhamos atravessado o mediterrâneo.
Tânger - Meknés
Após uma noite, mal dormida e apenas com três horas de descanso, num "Hostal" de qualidade, embarcámos no Ferry e após desbravar o levante chegámos a Tânger. Depois de muita confusão, preenchimento de papéis, várias verificações dos passaportes e documentos do carro, depois do ar de reprovação do guarda de fronteira, incrédulo por ver que o jipe era meu e que eu também o conduziria, partimos cheios dos guardas e das suas burocracias, mortos por os ver pelas costas.
Entrados na cidade lutámos contra a fúria dos condutores sem rei nem roque, sem regras, sem sinais, sem prioridades, com os peões a lançarem-se contra os carros para entre eles conseguirem atravessar as estradas. Ruas e ruas todas iguais de cores sem descrição e lixo sem contenção, parámos para almoçar.
Peixe bom na verdade. Não ao álcool, infelizmente sim ao tabaco, pelo menos para os turistas.
Mais horas de condução entre campos cultivados e pastos fartos de erva, animais e crianças a pastorearem. Serpenteia-se entre as montanhas, no cume cobertas de neve e chegados que fomos a Meknés, esperava-nos a confusão de turistas ávidos de um banho e muita descontracção.
Bom hotel, decoração tipicamente árabe.
Vamos à descoberta.
Amanhã esperam-nos as pistas do deserto. Provavelmente a nós e a mais umas boas centenas de loucos de jipe. A ver vamos.
Meknés - Erfoud
Os dias nascem calmos, o acordar é sonolento e demorado. As horas rolam sem pressas e a pressa é apenas a de chegar ao próximo lugar e apanhar a aventura. Experimentam-se os sabores, visitam-se as terras, acena-se às crianças que nos esperam na berma da estrada, espreitam-se os indígenas nas suas pacatas existências e questiona-se como podem viver assim. O dono do restaurante responde-nos a esta questão é que eles têm o que comer e onde dormir, são livres.
Visita-se um país de contrastes.
Para alcançar o deserto sobem-se montanhas, atravessam-se desfiladeiros, circundam-se lagos, atravessam-se rios, vislumbra-se neve que espreita ainda nas rochas e nos prados e finalmente as pistas, as tão esperadas pistas. Estradas de emoção, desconhecidas do asfalto, no meio de nenhures, longe de tudo e tão perto de nada.
Quilómetros e quilómetros de areia, terra e pó. Gozos inquestionáveis. Come-se o pó com os dentes, ferem-se-nos os olhos de ardor, mas a emoção é de furor.
Depois, de novo em repouso, depois da experiência e à espera de novas aventuras, reafirmam-se camaradagens, contam-se e recontam-se as mesmas e outras histórias, descobrem-se novos entusiastas e discute-se o gosto, a aventura que nos faz estar ali a todos nesse mesmo local, repartindo a vida, as horas, as experiências, as vontades, as existências.
Amanhã a aventura continua.
Procuro adormecer desejando que os meus filhos estejam bem e felizes, para os reencontrar em felicidade. As saudades são muitas, mas estes momentos são realmente preciosos e há que os gozar em plenitude.
Erfoud - Mahmid
Gente afável, acolhedora, carinhosa, simpática, prestável.
Um país lindo, de paisagens exóticas e inexploradas, pelo menos por nós, um País de aventura e calor, emoções fortes e sede de mudança, um País em transformação que nos apaixona e comove.
Um País que acolhe e aceita as nossas aventuras, as nossas paixões e aceita as nossas diferenças e saciedades, um País onde pudemos despejar as nossas ansiedades.
Diferentes costumes e paladares que sorvemos com satisfação, enquanto com o coração aos pulos e em constante emoção, percorremos trilhos de pedra, areia e terra dura.
Percorremos a altas velocidades lagos secos, rios sem água, nevoeiros intensos de areia.
Interrompem-se caminhos cujos trilhos se abateram, há que procurar novos caminhos. Procuram-se soluções, surgem ajudas nativas e toca de recomeçar a aventura.
Os trilhos são difíceis. Muitas horas de constante tensão.
Almoçamos no deserto, refugiados da tempestade de areia que surge do nada, num refúgio de quatro paredes, protegidos e a armazenar forças para recomeçar.
Dunas que se pensam inultrapassáveis, pedras soltas que nos agridem os jipes, jipes que vibram como se não pudessem resistir, mas que resistem.
Por fim, já de noite, derrotados de exaustão e ansiosos por um bom banho e um pouco de civilização chegamos a Mahmid onde nos espera um hotel "novinho em folha", tipicamente árabe, rodeado por um muro e tendas berberes para os turistas e condutores mais aventureiros.
Mahmid - Zagora
O deserto divide-se em várias cores. O dourado das dunas, o negro, por vezes também azulado, das pedras soltas das montanhas, o branco da areia dos lagos e rios secos que se atravessam sem parar e por vezes o verde de paisagens que não sendo só o dos oásis é também o das areias esverdeadas que nos ressaltam dos caminhos. Cores que, com certeza, se definem pelo tipo de mineral que presenteia aquelas terras e que lhes dá estas diferentes tonalidades.
As dunas são imensas e estonteantes, a emoção é deveras excitante pois nunca se sabe o que nos vai surgir do lado de lá de cada uma daquelas enormes dunas. Sobem-se, descem-se, contornam-se a alta velocidade, pois não convém parar.
Zagora - Marraquexe
Estradas de terra batida e pedra solta transportam-nos por entre oásis deslumbrantes de paisagens sem descrição. Trilhos abatidos pela chuva obrigam-nos mais uma vez a tornear caminhos e procurar novos percursos. Crianças surgem-nos nas estradas limpando as pedras soltas que nos atrapalham a jornada, sempre ansiando algo em troca, para o que nós, evidentemente, colaboramos distribuindo canetas, rebuçados, caramelos e outras coisas que tais.
Percorrem-se montanhas num sobe e desce que parece infindável. Contudo, a beleza das gargantas que se avistam nos desfiladeiros e os topos serpenteados de neve compensam o medo de deslizar montanha abaixo. Na verdade, a estrada é sinuosa e escarpada e só as fascinantes paisagens que daí se avistam fazem esquecer a tontura de tal serpentear.
Por fim Marraquexe à vista.
Marraquexe
Terra mágica. Magia de verdade. Gente de encantar.
Movimentos agitados, sons de embalar, vestem-se de cantos, oferecem emoções de arrasar. Gente que ondula, cores vibrantes, ruas estreitas, cheiros desconhecidos e desconcertantes, regateio sem parar, cobras que ondulam e gente que se ajoelha na rua para rezar. Perplexidade, horror controlado pelo espanto, a inquietude do que se desconhece.
O mercado de Marraquexe é tudo isto e tudo o mais que se não consegue descrever. É uma mistura de emoções e sentidos, inquietação e desejo de conhecer, a fúria das compras e da diversão de tudo negociar. Panóplia de artigos sem fim, tapetes, especiarias, tajides, roupas orientais, couros. Tudo é um jogo que satisfaz vendedor e comprador num repartir de emoções e que resulta numa troca que só resulta e se finaliza quando um e outro se convencem de ter ganho no regatear.
Marraquexe - Tânger
O sabor do regresso ao berço. Os reencontros que se anseiam, o regresso que já se planeia.
Fica a vontade de regressar, o desejo de repetir o mesmo país, as mesmas emoções, novos trilhos, outros caminhos, de novo emoções e mais emoções.
As emoções que ficam
Digam-me o que me disserem, e muitos podem ser os argumentos, que aceito e concordo, ou concordava até agora, não há dúvida de que tão importante como o que somos é de onde somos, onde nascemos, em que país, em que condições, e até a cor de pele que temos.
Nesta viagem, descobrimos um país, que até já conhecíamos, que já visitáramos de passagem, mas onde tivemos a oportunidade de desvendar nas suas várias vertentes e conhecendo as várias e diferentes gentes, origens e costumes. Contudo, apesar de em todo o lado as crianças serem iguais, são crianças, têm as mesmas necessidades, têm os mesmos direitos, deviam ter as mesmas oportunidades, idênticas perspectivas de futuro e bons projectos de vida. Verificamos que os milhares de crianças que este país gerou vivem no limiar da subsistência. Estas crianças que vimos descalças pelos terrenos áridos, secos e venenosos do deserto, anseiam por um carinho, um sorriso, um aceno de mão, mas, principalmente, não têm calçado, não têm doces, não têm vacinas, não têm condições escolares, não têm condições de higiene, e apesar de receberem dos turistas, de quem esperam e por vezes recebem bombons, canetas e outras coisas mais, continuam, após a nossa passagem que é esporádica e no fundo insignificante no resto das suas vidas, a ser exploradas. Estas crianças, desde tenra idade, são deixadas sozinhas, ou na companhia de outras, tão ou mais jovens, nos campos cuidando dos animais, todo o dia, à torreira de um sol escaldante, sem água, sem comida, sem sombra, num completo abandono, sem explicação.
Estas crianças surgem-nos no deserto, dos sítios mais incríveis e inesperados, sedentos de "cadeaux", mas após despejarmos as nossas oferendas, as suas vidas vão continuar exactamente iguais. Por isso, as nossas emoções, os olhos que banhámos de lágrimas e aqueles pequenos rostos de alegria e tristeza que levamos na memória, aqueles momentos, instantes que pudemos ter contribuído para alguma felicidade, nada irão mudar, são apenas instantes. Daí esta sensação de desconforto, resignação, indignação e, principalmente, constatação de que, na verdade, tão importante como aquilo que podemos fazer com a nossa vida e que depende da nossa vontade, da nossa educação etc., depende essencialmente, de onde nascemos, de quem descendemos. Essa é uma grande verdade na medida em que quantas daquelas crianças que vimos sós no deserto, descalças, com sede, provavelmente com fome, sem cuidados de higiene, sem educação, vão saber o que é ser criança, ou vão sequer chegar à adolescência? Quantas destas crianças, futuros jovens, a força de trabalho deste país, dentro de uns anos, vão ter trabalho ou um projecto de vida minimamente razoável? Não sei, provavelmente nem um terço deles atinge a idade adulta, nem um terço deles terá oportunidade de ter outras oportunidades, nem um terço deles terá emprego, nem um terço deles terá perspectiva de um futuro melhor, um futuro risonho, que é afinal aquilo que todos desejamos.
É por isso, com esta mágoa que deixo Marrocos, não sabendo se poderei fazer algo para melhorar essa situação.