Desvarios Múltiplos

Para memórias futuras....

terça-feira, julho 26, 2005

Em conversa com Deus



Em conversa com Deus

Agarrando o desafio lançado noutros Blog`s decidi expressar aqui os sentimentos despertos pelo mesmo:

O desafio e as perguntas estão aqui traçadas tal como as recolhi do Blog onde as encontrei.

Imagina que Deus marcou um encontro contigo num determinado restaurante perto da tua casa. Imagina-te sentado/a ao seu lado, a dialogar com Ele. E agora pergunto eu:

1- Qual era a ementa que lhe sugerias e porquê?
Cozinha vegetariana, para que ele soubesse que os sabores e os gostos são variáveis e que sendo todos nós uma mistura de raças, tradições e culturas, afinal, alguns de nós estamos a aprender a voltar atrás, reaprendendo a dar valor e saborear legumes e vegetais, com imaginação e requinte. E poderia sugerir que terminássemos com um Toucinho do Céu para sobremesa, para que soubesse o que por cá pensamos que sejam os sabores lá no Céu.

2- Que motivo teria Deus para querer almoçar contigo?
Se Deus me convidasse para almoçar, acharia espantoso e ficaria eternamente grata pelos momentos tão preciosos que me dedicava e dos quais se iria distrair das demais preocupações. Não iria achar que a escolha tivesse sido à sorte porque acho sempre que não tenho sorte e que a sorte de cada um está ou no destino que não nos cabe traçar, ou na parte do caminho que nos compete talhar.


3- Fazia-te perguntas acerca da Igreja. Que lhe contavas?
Que igreja não é una. Que muitos se apregoam seus seguidores mas poucos o são verdadeiramente. Que a religião é uma arma mortifera e que em seu prol se combatem muitas guerras se praticam muitas injustiças se apregoam muitas farsas. Que a Igreja, em suma, devendo ser um caminho, está ferida e carece de uma luz que a ilumine.

4- Dava-te a possibilidade de te concretizar um desejo. Que pedias?
Que os homens se conciliassem com Deus pois tal conciliação poderia recuperar-lhes a alma e dar sentido à vida, tal como ela deve ser vivida, com fraternidade, tolerância e esperança.

5- No final da refeição, pedia-te uma recordação. Que lhe oferecias?
A minha eterna gratidão por me ter atravessado no seu caminho convidando-me para almoçar

6- Por fim oferecias-lhe um café com ou sem açucar? Porquê?
Sem açucar. O sabor do café amargo é o mais puro, saboroso e verdadeiro.

7- Quem pagava a conta??
Só por curiosidade e para saber se andava atento a estas coisas terrenas sugeria que fosse ele a pagar para ver em que moeda o fazia e para ver se o empregado o tentaria enganar e como reagiria.

8- Quem vais sugerir (3 pessoas) para almoçar com ele? E porquê?
Não me permitiria sugerir ninguém pois Ele saberá melhor quem quererá ou deverá convidar. Contudo, estou certa que muitos dariam e dão muito da sua vida pelo que acreditam ser a vontade e o querer de Deus. Muitos dão a vida e desejam a morte para supostamente lhe seguirem os passos e viverem por Ele e para Ele e por isso merecerão almoçar com Ele.

Alice Oliveira

terça-feira, maio 31, 2005

Des(aventuras) de mãe


- Olha filhote, não andes a correr, agasalha-te bem e boa escolinha. Não trouxeste gorro vais ter frio.
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Era a conversa matinal com o meu filho mais velho, de 10 anos e que neste dia em particular, eu com mais cuidado aconselhava, já que na noite anterior estivera no Centro de Saúde de Mafra, no qual lhe detectaram mais uma amigdalite, entre as centenas que coleccionava, enquanto, ao mesmo tempo, recriminando-me por o estar a deixar na escola, apesar de no dia anterior ter tido 39 graus de febre, lhe dava dois repenicados beijos.
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- Deixa lá mãe. Com estes dois beijinhos já fico bem quentinho.
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E lá foi acenando e mandando beijos pelo ar e gesticulando o adeus.
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Só os nossos filhos nos podem perdoar com este carinho.
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Alice Oliveira

quarta-feira, maio 25, 2005

Sagrado Feminino

Maria Madalena, George Latour


Maria Madalena

Serva, Sacerdotisa,
Mulher de mistérios e esoterismos,
Mulher em sentimentos, em sonhos e
Em desgostos.
Mulher sempre presente

Mulher na força, na vida, na morte,
Na ressurreição.
Mulher sempre presente

Mulher sempre presente,
Mulher que se sente, que se vive,
Que se pressente.

Eis a mulher que nos inspira,
Mulher que nos acolhe na vida,
No amor e na sorte.

Mulher que nos protege, aconselha,
Anima e motiva na dor e no sofrimento.
Mulher sempre presente

Eis a mulher que limpou as feridas,
Recolheu o sangue e espalhou a noticia.
Esperança, luz, vida.
Mulher sempre presente.

Alice Oliveira

quinta-feira, maio 12, 2005

Contos Infantis I


Os olhos negros do João

O João é um menino muito esperto e traquina.
Solta ao vento os seus cabelos escuros
e são muito grandes os seus olhos negros.

O João gosta de ver, com os seus olhos grandes e negros, as ondas brancas do mar, mergulhar as mãos na areia e vê-la desaparecer entre os seus dedos, sem a conseguir segurar.

Deitado de costas na areia, o João gosta de ver o céu e as aves a voar.
Os olhos negros e estonteantes do João vibram com as conchas, rolam como as pedrinhas do mar, correm como os bichinhos que se escondem na areia e que insiste em agarrar.

Os olhos negros do João brilham como as estrelas, cantam como só as crianças sabem cantar, voam como os pássaros no céu.
Os olhos do João são negros de encantar.

quinta-feira, abril 28, 2005

Sagrado Feminino

Nascimento de Vénus - Sandro Boticelli

A SUPRESSÃO DO SAGRADO FEMININO PELA IGREJA CRISTÃ

"A igreja cristã, ao acentuar o princípio masculino e ao negar o feminino, mais não fez do que proporcionar-nos dois mil anos de caos e violência." In Guia Essencial de O Código da Vinci de Michael Haag e Veronica Haag

terça-feira, abril 12, 2005

Marrocos num olhar feminino

Foto: Francisco Fernandes

Com o coração nas mãos, as pernas a tremer, o gosto pela aventura, remexido com o pavor do desconhecido e a angústia de deixar para trás o que mais querido tenho na vida, acompanhada do outro oásis da minha existência, parti para Marrocos.

Dez horas de viagem e ainda não tínhamos atravessado o mediterrâneo.

Tânger - Meknés

Após uma noite, mal dormida e apenas com três horas de descanso, num "Hostal" de qualidade, embarcámos no Ferry e após desbravar o levante chegámos a Tânger. Depois de muita confusão, preenchimento de papéis, várias verificações dos passaportes e documentos do carro, depois do ar de reprovação do guarda de fronteira, incrédulo por ver que o jipe era meu e que eu também o conduziria, partimos cheios dos guardas e das suas burocracias, mortos por os ver pelas costas.

Entrados na cidade lutámos contra a fúria dos condutores sem rei nem roque, sem regras, sem sinais, sem prioridades, com os peões a lançarem-se contra os carros para entre eles conseguirem atravessar as estradas. Ruas e ruas todas iguais de cores sem descrição e lixo sem contenção, parámos para almoçar.

Peixe bom na verdade. Não ao álcool, infelizmente sim ao tabaco, pelo menos para os turistas.

Mais horas de condução entre campos cultivados e pastos fartos de erva, animais e crianças a pastorearem. Serpenteia-se entre as montanhas, no cume cobertas de neve e chegados que fomos a Meknés, esperava-nos a confusão de turistas ávidos de um banho e muita descontracção.

Bom hotel, decoração tipicamente árabe.

Vamos à descoberta.

Amanhã esperam-nos as pistas do deserto. Provavelmente a nós e a mais umas boas centenas de loucos de jipe. A ver vamos.

Meknés - Erfoud

Os dias nascem calmos, o acordar é sonolento e demorado. As horas rolam sem pressas e a pressa é apenas a de chegar ao próximo lugar e apanhar a aventura. Experimentam-se os sabores, visitam-se as terras, acena-se às crianças que nos esperam na berma da estrada, espreitam-se os indígenas nas suas pacatas existências e questiona-se como podem viver assim. O dono do restaurante responde-nos a esta questão é que eles têm o que comer e onde dormir, são livres.

Visita-se um país de contrastes.

Para alcançar o deserto sobem-se montanhas, atravessam-se desfiladeiros, circundam-se lagos, atravessam-se rios, vislumbra-se neve que espreita ainda nas rochas e nos prados e finalmente as pistas, as tão esperadas pistas. Estradas de emoção, desconhecidas do asfalto, no meio de nenhures, longe de tudo e tão perto de nada.

Quilómetros e quilómetros de areia, terra e pó. Gozos inquestionáveis. Come-se o pó com os dentes, ferem-se-nos os olhos de ardor, mas a emoção é de furor.

Depois, de novo em repouso, depois da experiência e à espera de novas aventuras, reafirmam-se camaradagens, contam-se e recontam-se as mesmas e outras histórias, descobrem-se novos entusiastas e discute-se o gosto, a aventura que nos faz estar ali a todos nesse mesmo local, repartindo a vida, as horas, as experiências, as vontades, as existências.

Amanhã a aventura continua.

Procuro adormecer desejando que os meus filhos estejam bem e felizes, para os reencontrar em felicidade. As saudades são muitas, mas estes momentos são realmente preciosos e há que os gozar em plenitude.

Erfoud - Mahmid

Gente afável, acolhedora, carinhosa, simpática, prestável.

Um país lindo, de paisagens exóticas e inexploradas, pelo menos por nós, um País de aventura e calor, emoções fortes e sede de mudança, um País em transformação que nos apaixona e comove.

Um País que acolhe e aceita as nossas aventuras, as nossas paixões e aceita as nossas diferenças e saciedades, um País onde pudemos despejar as nossas ansiedades.

Diferentes costumes e paladares que sorvemos com satisfação, enquanto com o coração aos pulos e em constante emoção, percorremos trilhos de pedra, areia e terra dura.

Percorremos a altas velocidades lagos secos, rios sem água, nevoeiros intensos de areia.

Interrompem-se caminhos cujos trilhos se abateram, há que procurar novos caminhos. Procuram-se soluções, surgem ajudas nativas e toca de recomeçar a aventura.

Os trilhos são difíceis. Muitas horas de constante tensão.

Almoçamos no deserto, refugiados da tempestade de areia que surge do nada, num refúgio de quatro paredes, protegidos e a armazenar forças para recomeçar.

Dunas que se pensam inultrapassáveis, pedras soltas que nos agridem os jipes, jipes que vibram como se não pudessem resistir, mas que resistem.

Por fim, já de noite, derrotados de exaustão e ansiosos por um bom banho e um pouco de civilização chegamos a Mahmid onde nos espera um hotel "novinho em folha", tipicamente árabe, rodeado por um muro e tendas berberes para os turistas e condutores mais aventureiros.

Mahmid - Zagora

O deserto divide-se em várias cores. O dourado das dunas, o negro, por vezes também azulado, das pedras soltas das montanhas, o branco da areia dos lagos e rios secos que se atravessam sem parar e por vezes o verde de paisagens que não sendo só o dos oásis é também o das areias esverdeadas que nos ressaltam dos caminhos. Cores que, com certeza, se definem pelo tipo de mineral que presenteia aquelas terras e que lhes dá estas diferentes tonalidades.

As dunas são imensas e estonteantes, a emoção é deveras excitante pois nunca se sabe o que nos vai surgir do lado de lá de cada uma daquelas enormes dunas. Sobem-se, descem-se, contornam-se a alta velocidade, pois não convém parar.

Zagora - Marraquexe

Estradas de terra batida e pedra solta transportam-nos por entre oásis deslumbrantes de paisagens sem descrição. Trilhos abatidos pela chuva obrigam-nos mais uma vez a tornear caminhos e procurar novos percursos. Crianças surgem-nos nas estradas limpando as pedras soltas que nos atrapalham a jornada, sempre ansiando algo em troca, para o que nós, evidentemente, colaboramos distribuindo canetas, rebuçados, caramelos e outras coisas que tais.

Percorrem-se montanhas num sobe e desce que parece infindável. Contudo, a beleza das gargantas que se avistam nos desfiladeiros e os topos serpenteados de neve compensam o medo de deslizar montanha abaixo. Na verdade, a estrada é sinuosa e escarpada e só as fascinantes paisagens que daí se avistam fazem esquecer a tontura de tal serpentear.

Por fim Marraquexe à vista.

Marraquexe

Terra mágica. Magia de verdade. Gente de encantar.

Movimentos agitados, sons de embalar, vestem-se de cantos, oferecem emoções de arrasar. Gente que ondula, cores vibrantes, ruas estreitas, cheiros desconhecidos e desconcertantes, regateio sem parar, cobras que ondulam e gente que se ajoelha na rua para rezar. Perplexidade, horror controlado pelo espanto, a inquietude do que se desconhece.

O mercado de Marraquexe é tudo isto e tudo o mais que se não consegue descrever. É uma mistura de emoções e sentidos, inquietação e desejo de conhecer, a fúria das compras e da diversão de tudo negociar. Panóplia de artigos sem fim, tapetes, especiarias, tajides, roupas orientais, couros. Tudo é um jogo que satisfaz vendedor e comprador num repartir de emoções e que resulta numa troca que só resulta e se finaliza quando um e outro se convencem de ter ganho no regatear.

Marraquexe - Tânger

O sabor do regresso ao berço. Os reencontros que se anseiam, o regresso que já se planeia.

Fica a vontade de regressar, o desejo de repetir o mesmo país, as mesmas emoções, novos trilhos, outros caminhos, de novo emoções e mais emoções.

As emoções que ficam

Digam-me o que me disserem, e muitos podem ser os argumentos, que aceito e concordo, ou concordava até agora, não há dúvida de que tão importante como o que somos é de onde somos, onde nascemos, em que país, em que condições, e até a cor de pele que temos.

Nesta viagem, descobrimos um país, que até já conhecíamos, que já visitáramos de passagem, mas onde tivemos a oportunidade de desvendar nas suas várias vertentes e conhecendo as várias e diferentes gentes, origens e costumes. Contudo, apesar de em todo o lado as crianças serem iguais, são crianças, têm as mesmas necessidades, têm os mesmos direitos, deviam ter as mesmas oportunidades, idênticas perspectivas de futuro e bons projectos de vida. Verificamos que os milhares de crianças que este país gerou vivem no limiar da subsistência. Estas crianças que vimos descalças pelos terrenos áridos, secos e venenosos do deserto, anseiam por um carinho, um sorriso, um aceno de mão, mas, principalmente, não têm calçado, não têm doces, não têm vacinas, não têm condições escolares, não têm condições de higiene, e apesar de receberem dos turistas, de quem esperam e por vezes recebem bombons, canetas e outras coisas mais, continuam, após a nossa passagem que é esporádica e no fundo insignificante no resto das suas vidas, a ser exploradas. Estas crianças, desde tenra idade, são deixadas sozinhas, ou na companhia de outras, tão ou mais jovens, nos campos cuidando dos animais, todo o dia, à torreira de um sol escaldante, sem água, sem comida, sem sombra, num completo abandono, sem explicação.

Estas crianças surgem-nos no deserto, dos sítios mais incríveis e inesperados, sedentos de "cadeaux", mas após despejarmos as nossas oferendas, as suas vidas vão continuar exactamente iguais. Por isso, as nossas emoções, os olhos que banhámos de lágrimas e aqueles pequenos rostos de alegria e tristeza que levamos na memória, aqueles momentos, instantes que pudemos ter contribuído para alguma felicidade, nada irão mudar, são apenas instantes. Daí esta sensação de desconforto, resignação, indignação e, principalmente, constatação de que, na verdade, tão importante como aquilo que podemos fazer com a nossa vida e que depende da nossa vontade, da nossa educação etc., depende essencialmente, de onde nascemos, de quem descendemos. Essa é uma grande verdade na medida em que quantas daquelas crianças que vimos sós no deserto, descalças, com sede, provavelmente com fome, sem cuidados de higiene, sem educação, vão saber o que é ser criança, ou vão sequer chegar à adolescência? Quantas destas crianças, futuros jovens, a força de trabalho deste país, dentro de uns anos, vão ter trabalho ou um projecto de vida minimamente razoável? Não sei, provavelmente nem um terço deles atinge a idade adulta, nem um terço deles terá oportunidade de ter outras oportunidades, nem um terço deles terá emprego, nem um terço deles terá perspectiva de um futuro melhor, um futuro risonho, que é afinal aquilo que todos desejamos.

É por isso, com esta mágoa que deixo Marrocos, não sabendo se poderei fazer algo para melhorar essa situação.